Alguns segundos, que mais pareceram uma eternidade, se passaram desde que abri meus olhos. Ainda é estranha para mim a expressão “abri meus olhos”, se eles permanecem fechados no meu rosto, e continuarão assim até que se decomponham em pó. O que quero dizer é que se apagou a escuridão, como se fosse possível apagar o escuro... Mas é assim que funciona agora.
Abri meus olhos, não os físicos, mas os da alma, talvez. Enfim, pude retomar a razão e o conhecimento das coisas que agora acontecem. Acordei como depois de um coma, mas de uma forma diferente dos relatos de quem esteve em coma e despertou. Parece-me que o tempo desacordado demorou uma eternidade a mais que os milésimos de segundo que realmente durou. E ainda meus pensamentos e palavras são confusos, pois digo que acordei mesmo que já não possa mais acordar. E se milésimos de segundos pareceram-me uma eternidade, a eternidade agora é o que me assusta, pois antes me era desconhecida, e agora vem de encontro a mim. Realmente, tudo agora são contradições, até que meu conhecimento se abra para o que é oculto e me sejam revelados os mistérios que me cobrem.
A dor que senti em meu corpo ainda permanece, e durará para sempre. Foi a última coisa que senti na vida, e foi rápido demais entre a sensação de dor e a escuridão.
Voltando da empresa, depois de um dia comum de trabalho, dirigi meu carro pela rodovia, seguindo o caminho mais automático que conhecia. Nem ao menos era necessário pensar em qual direção tomar, pois era o meu caminho diário. Talvez até mesmo o meu carro fizesse o caminho sozinho, sem precisar que eu o dirigisse, de tão acostumado que estava. Porém, o meu problema neste dia foi que eu pensei.
O céu estava nublado, daquele cinza esbranquiçado da indecisão da chuva em cair ou não. Não ventava, não estava frio e nem calor. As nuvens cobriam o sol que estava se pondo, e mesmo o tão melancólico crepúsculo não foi possível visualizar. O cinza apenas se tornava mais escuro com o dia que se ia embora. Estava um clima parado e angustiante. Não havia esperança, somente indecisão.
Olhava essa angustia do tempo pelo vidro do carro, e pensava na mesma angustia que existia em meu coração. Aquele vazio que sentia era análogo com aquele clima. Era um vazio parado, um grande vácuo, uma falta de sentido.
Não pude continuar a dirigir e parei meu carro no acostamento. Fiquei sentado por um tempo no banco do motorista, pensando e pensando, dependente da angustia e tristeza que sentia. Pensar às vezes é perigoso. Não digo um pensar racionalmente, mas um pensar que foge à razão e cai na ilusão. Sentia uma solidão, e meus pensamentos me fizeram perceber que realmente estava sozinho naquele momento. Olhei para meu braço que começou a doer levemente. Na verdade, ele já doía, mas agora eu percebia sua dor. Doía a cicatriz do corte que fiz propositalmente com uma tesoura na noite passada, pois necessitava transformar aquela dor que sentia dentro de mim em algo físico, pois é bem menos torturante a dor em que sabemos onde se encontra, que podemos ver e tocar suas marcas. A dor que arde no interior de nosso ser chega a ser insuportável, ainda mais quando a alimentamos, mesmo inconsciente de fazê-lo, pois essa dor sente fome, e cresce, como com vida própria, e se espalha pelos espaços abstratos de nosso corpo. Invade a mente, os sentidos e os sentimentos, a memória. Faz perder a fome e a vontade de comer, faz também perder o sono ao mesmo tempo em que causa sonolência e indisposição. Essa dor pode se transformar em uma tristeza praticamente irremediável, e essa tristeza é viciante. E eu estou viciado.
A pessoa que se torna dependente desta tristeza acaba vivendo por meio dela. A tristeza se torna o único sentido do viver, e tudo caminha em torno dela. É uma auto compaixão de quem passa a não mais se amar, mas a amar apenas a sua tristeza, pois se acostuma a ela como se fosse única companheira na vida.
Durante os últimos dias, de forma meio inconsciente, distribuí diversos sinais para o mundo, para que percebessem que algo não estava certo comigo. Eu não estava normal. Entretanto, não fui ouvido, não fui compreendido, não fui ajudado. Eu mesmo não quis ser ajudado, e fugi de qualquer ajuda. Não fui capaz de dobrar meu orgulho, pois era o que eu tinha de mim mesmo. Não pude ser objetivo, pois nem mesmo possuía entendimento do que estava acontecendo. Ao contrário, recebi cobranças, principalmente de mim mesmo. E cada vez mais passei a me odiar, a odiar a vida miserável que tinha, e cada vez mais eu mesmo a tornava miserável.
Sentado ali em meu carro estacionado, estava eu pensando irracionalmente, até que aquela angustia me atormentasse de tal modo que a razão fugiu de meu ser. Eu nem mais sabia o que sentia e o que pensava. Não pude chorar para aliviar-me, pois isso me foi proibido por alguma força oculta em mim, e isso me despedaçava. Tornou-se impossível continuar ali sentado, parado, deixando que a dor e a tristeza me dominassem. Mas eu não sabia que eu já estava dominado.
Eu era somente emoções, não possuindo mais nenhuma razão. E eram das piores emoções possíveis. Agora, que o conhecimento de tudo me foi alcançado, agora, depois de ter passado a barreira do mundo, não possuo mais emoções, mas somente a razão. Não possuo mais sentimento algum, e a própria dor que sinto, e a angustia de não mais viver, permanecem em mim, de uma forma ainda pior que antes, pois não são físicas nem emocionais. São dores racionais.
Abri a porta do carro e me coloquei para fora. Fechei a porta com toda a segurança. Acionei as travas e o alarme e, como um zumbi, caminhei pelo acostamento. Sentia o peso do clima sobre mim, e o peso da loucura em que chegara. Se o tempo estava parado, era pesado e sufocante. Minha claustrofobia se tornara espiritual.
Cheguei a uma ponte e ali parei. Outra rodovia passava abaixo daquela em que me encontrava, e daquele ponto, podia avistar as luzes da cidade na distancia, que começavam a aparecer no decair da tarde. Olhei para baixo e somente enxergava a velocidade dos carros que passavam. Desnorteavam-me as luzes rápidas dos faróis abaixo de mim, e senti medo, e uma vontade louca de chorar, mas as lágrimas não apareceram, por mais força que fizesse para derramá-las. Elas evaporaram com o calor gelado de meu coração. Fiquei ali um tempo, enquanto ouvia vozes em minha cabeça. Estava atormentado.
Se pudesse, abriria minha cabeça e arrancaria meus miolos para fora, no desejo de arrancar aquelas vozes e tudo o que perturbava minha paz. Queria poder entender o que estava acontecendo comigo, mas como já disse não me restava mais razão alguma.
Senti uma espécie de frio em minha barriga e costelas, e minhas pernas tremiam como se passasse mal. E realmente não estava são naquele momento.
Ali, a escuridão começou a tapar meus olhos, e meu coração acelerava de modo que parecia que alçaria voo. Meu desejo era poder sair voando dali, e uma certa adrenalina percorreu meu corpo. Era a adrenalina do medo, e passei a me sentir estranhamente melhor, como se estivesse anestesiado. E então, não sei se por coragem ou covardia, saltei.
Abri meus braços como se fosse voar, e sorria. Foi um mergulho sensacional. Era como um abismo para onde eu pulava, e a partir do impulso que dei ainda em cima da ponte, a ideia do tempo mudou, e ainda caindo passei a experimentar a eternidade. Toda a minha vida passou em minhas lembranças, e todo o meu medo se foi, mas não a angustia que sentia.
Senti o impacto do meu corpo sobre os automóveis que passavam, e o arremesso com o qual fui lançado para cima e para os lados. Ouvi as várias buzinas, o cantar dos pneus, as batidas e os gritos. Senti minha cabeça bater várias vezes, e a dor foi horrível. Tanta foi a dor que entrei na escuridão eterna.
E me tornei razão ainda quando estava estirado ao chão. Vi meu corpo ali, e a confusão que causara. E até senti alívio quando notei que não estava mutilado. O carro em que bati, de certa forma, amorteceu o impacto, e o que me causou a morte instantânea foi as batidas de cabeça.
Permaneci então ali, frio como a própria falta de vida. Frio como algo que não se sente no corpo, pois agora meu corpo nada mais sentia. Era um frio intenso de morte, gelado de um modo jamais sentido por algum corpo vivo. E continuei sozinho, mas sem sentir solidão. Apenas observava, sem saber o que aconteceria, sem conhecimento algum do que me aguardava.
O tempo passou, mas não fazia mais diferença alguma para mim. As pessoas se aglomeraram em minha volta, assustadas, mas não deixavam de me observar.
O resgate chegou, e sentindo meu corpo ainda quente, tentaram me reanimar à vida, mas minha vida já se esgotara. Ela se fora quando eu ainda vivia. Ninguém foi capaz de entender aquele incidente, como nunca ninguém foi capaz de entender a mim. E levaram meu corpo. Acompanhei sem me cansar.
Passou-se a noite e a manhã. E neste momento, quase ao meio-dia, estou aqui, acompanhando meu corpo velado. Impressionante a enorme quantidade de pessoas presente, chorando e se abraçando. Sinto-me até amado agora, e desejaria voltar à vida, mas só há o sofrimento de um desejo que não será realizado. Se fosse possível, certamente me arrependeria, mas o arrependimento não existe mais, pois ele só é possível àqueles que vivem.
Engraçado observar como as pessoas estão comovidas, mas eu não me sinto nem um pouco comovido, e acho que nem poderia mais me comover. Questiono se sentem remorso ou culpa, mas não sei ao certo, apenas especulo. Será que elas não poderiam perceber o quanto me senti sozinho enquanto vivia, e o quanto elas preferiram se ocupar no seu egoísmo? Agora estão aqui, ao meu lado. Ironicamente me fazendo companhia.
A ironia talvez seja o único sentimento que me restou. Mas nem posso afirmar que seja um sentimento. Talvez seja um traço próprio de meu estado.
Nesta mesma ironia, reconheço que a maior culpa pelas minhas amarguras é minha mesmo. Pois permiti que a loucura me alcançasse e que a tristeza me entorpecesse. Eu busquei a tristeza, e a amei. Eu busquei o sofrimento, no intento de que fosse amado e protegido, mas este é um caminho enganoso, e cegou meu reconhecimento do amor que eu já recebia. O medo ocultou-me do amor e da amizade. Eu mesmo, na minha tolice, destruí o amor de minha vida. Lutei contra a amizade, afirmando para mim mesmo que a amizade não existia sinceramente. Eu mesmo acabei desejando minha ruína, quando pensava desejar o contrário.
E meu corpo mais uma vez é levado, e dessa vez, para nunca mais ser visto. As pessoas chorando, seguem em procissão, vestidas de preto em sua maioria. Preto como a morte.
Meu corpo está sendo enterrado, para à terra retornar. E as flores que tanto gostava, que tanto desejava, recebo-as agora, mas como despedida, e não como reencontro.
Aí tudo se acaba. Meu tempo aqui acabou e não sei para onde irei. Talvez mereça a condenação e o sofrimento eterno, ou esperarei sofrendo minha dor, que não passou com meu ato de loucura, mas piorou. Esperarei, sofrendo minhas amarguras, sem descanso, na solidão que tanto temia, até que minhas dívidas sejam pagas. Será que se lembrarão de mim? Ou aquilo que plantei e mais temi terei que suportar até o final dos tempos? Uma oração que seja, em minha intenção, grande alívio seria para este meu sofrimento nos palácios da morte.
E as pessoas vão embora, deixando-me ali, apodrecendo.
Eu não lembro mais o meu nome, nem minha história, mas reconheço o que senti. Aquelas pessoas que agora partem, sabem meu nome e toda a minha história, mas não conheceram quem fui, nem os meus tormentos, nem minhas amarguras, pois não podiam sentir-me. Eu não permiti que me sentissem. Tornei-me um anônimo para o mundo. Tornei-me um anônimo para mim mesmo.


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