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sábado, 17 de setembro de 2011

O Menino e o Vagalume - Parte 5

Vagando por entre as sombras das árvores de um aberto e pequeno bosque e deixando para trás o riacho gelado, tudo o que gostaria de descobrir era a fonte do doce odor que lhe excitava. Passou pelas árvores e nem notou os esquilos que corriam pela trilha, nem percebeu o barulho que faziam ao pular e se esconder nos montes de folhas secas que o vento de outros outono trouxera. Apenas sentia e seguia o cheiro.
Depois que as árvores terminaram, o menino encontrou uma ampla campina florida de variadas cores. O brilho do sol fazia com que tudo se tornasse mais bonito, e a brisa que vinha dos vales distantes espalhava o doce perfume pelos ares, que entrava pelas narinas do menino e lhe causava uma estranha sensação extasiante.
De um jeito tímido, aproximou-se das primeiras flores, que lhe sorriam e abanavam, auxiliadas pelo vento. O olhavam de modo convidativo, sorrindo com uma simpatia que lhe parecia confiável, e o menino se aproximou mais e, inclinando-se, atreveu a cheirar de perto, quase encostando o nariz nas pétalas das flores, e estas ainda mais lhe pareciam sorrir. A brisa que ali corria curvou-se e, como um modesto e suave redemoinho, empurrava levemente o menino contra o jardim, estimulando-o a adentrar em meio às flores.
O ingênuo menino esqueceu sua timidez e seus receios e caminhou entre as flores, que o acariciavam conforme passava. Todas as flores se viravam para ele, como um girassol que se volta para o sol, e balançavam em uma sincronia hipnotizante, e não deixavam de sorrir e olhar. Lhe pareciam confiáveis e amigáveis, como as companhias que o menino gostaria de ter para si. Caminhando e perdendo a noção do tempo que já gastara ali, como uma mágica o perfume das flores despertava emoções no menino, que se entregava aos prazeres que sentia. Saltava de flor em flor, cheirando, sendo acariciado e se deleitando de paixões. O menino sorria, como as flores lhe sorriam, e seu corpo se anestesiava e, de tantos prazeres, se sentia relaxado e até sonolento. Continuou dessa forma até que sem perceber, estava entregue ao sono, deitado entre as flores, com um sorriso abobado na face.
Uma dor repentina fez o menino despertar. Não conseguia levantar, pois estava preso, como que enraizado ao chão. Os ramos das flores se entrelaçaram sobre seu corpo e membros, aprisionando-o. Os agudos espinhos lhe perfuravam a roupa e a pele, arranhando-o. O prazer transformou-se em dor, e a aparente liberdade tornou-se prisão.
Por sorte, aquele menino, mesmo com toda a sua ingenuidade, era repleto de uma bênção especial, como uma dádiva que lhe fora dada gratuitamente. Lutou contra as amarras, e o veneno que os espinhos injetaram em seu sangue não foi o suficiente para fazer efeito, mas com certeza faria se continuassem ali por mais tempo.
Aquelas flores, na verdade, não eram simples flores bonitas e perfumas, de uma rara beleza. Eram criaturas enfeitiçadas por uma antiga magia maligna. Não cometiam o mal por que queriam, pois sua essência é e continuará sendo boa, mas são impelidas à maldade devido ao estado em que se encontram, e por terem perdido a consciência do certo e do errado. Eram também pessoas antes de se transformarem e, como o menino, também se entregaram àquele prazer parecido com liberdade, mas que era um engano, uma mentira escondida na aparência formosa, na simpatia, nos sorrisos e nos olhares. O pequeno menino também se transformaria em um deles se não lutasse, levantasse e fugisse daquela situação de risco, e a graça que o acompanhava lhe fazia ser forte, mesmo que ainda continuasse a ser tentado pelo perfume que exalava, ainda mais forte pelo fato da vontade do menino de se livrar daquilo, e mesmo que se sentisse fraco diante daquela situação, ele poderia vencer se fosse determinado a não mais se entregar.
O menino olhou para o Céu e, juntando suas forças em um único suspiro, retorceu-se e levantou, rompendo o que lhe prendia ao chão. Olhou para o Céu pois sonhava em voar, e o tinha como o seu lugar. Não nasceu para se arrastar ao chão.
Depois de ter se levantado, pela sua própria vontade e esforço, a luta se tornou mais fácil, pois continuando a sentir o doce perfume, conseguia manter-se concentrado e decidido. Percebeu que estava sem a sua flor, que tanto amava, e se lembrou que não poderia prosseguir sem ela, e nem ao menos viver. Correu então, por entre as flores, que continuavam a sorrir e olhar, mas já não lhes dava atenção. Encontrou sua flor, que se destacava entre as demais, e a resgatou toda machucada e ferida pelos espinhos, e a sentia doer em sua alma. Abandonou aquele lugar e fugiu.
A dor que sentia latejava e o menino, depois de ter corrido rumo à direção que sentia dentro de si, deixou o campo aberto e entrou novamente em um bosque, o mais escuro que já viu e, aprofundando-se na escuridão do bosque, encostou-se em uma árvore, um pinheiro alto e sombrio, e escorregando vagarosamente pelo tronco do pinheiro, sentou-se no chão, abraçando-se a si mesmo e protegendo a flor com o seu corpo. A noite caiu, mas já quase não fazia diferença dentro do bosque, e o pobre menino, desta vez verdadeiramente adormeceu. Adormeceu de tanto chorar.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O Menino e o Vagalume - Parte 4



Conforme caminhava, o menino notava paisagens lindas e diferentes, encantando-se com a sua beleza e infinidade, assim como procedia quando ainda era criança. Não havia ninguém para questionar sua inocência e seu comportamento. Ele se deixava admirar pela beleza que o cercava, mas não sabia encontrar o equilíbrio interior que o permitiria ser verdadeiramente livre. Estava preso entre a realidade e a fantasia de seus sonhos. E a solidão, que ele buscava para viver consigo mesmo, tornou-se entediante. 
O menino se sentou então a beira de um riacho, para descansar de sua árdua caminhada. Repousou os pés na água corrente e fria e ali permaneceu, silenciosamente, com a única companhia que tinha, sua flor tão estimada. 
Aos poucos, o menino foi se entregando aos sentidos. Sentiu como a água do riacho era mesmo fria, ao ponto de adormecer as pontas dos dedos de seus pés. Sentia a velocidade da correnteza que massageava sua pele, acelerando sua corrente sanguínea, que passou a ter a mesma velocidade do riacho. Sentia seu coração bater no ritmo do ambiente, e era quase capaz de ouvi-lo. Sentia seu sangue correr por suas veias, dos pés frios às maçãs de seu rosto, aquecendo-se novamente com o calor do sol que brilhava. Aquele brilho do sol refletia das águas, e tudo se tornava mais claro e luminoso, num convite para fechar os olhos e viver aquele momento. 
Junto com o pulsar do coração, o menino ouvia a brisa suave ao longe, o murmúrio da água que corria veloz, o canto dos pássaros pulando nos galhos das árvores. Sentia a aspereza da grama nos dedos de suas mãos apoiadas no solo. O menino neste instante, fazia parte do ambiente. Eles eram um só naquele momento. 
Com os olhos ainda fechados, o menino se entregava mais aos sentidos, e até mesmo seus pensamentos voavam junto com a brisa suave e corriam junto com o riacho gelado. Sentia o cheiro inodoro da água, úmido e frio, e o cheiro trazido pelo ar, sentindo o seu sabor. Seus sentidos se misturavam assim como ele se misturava àquele lugar. 
Com a percepção sagaz de seus sentidos, o menino sentiu um odor que até então não havia percebido. O vento lhe trouxe um cheiro doce, que lhe causava prazer e curiosidade. 
No instante em que percebeu esse novo cheiro, o menino abriu os olhos e despertou. Deixou de ser único com o ambiente e retornou a ser ele mesmo. O cheiro lhe chamava a atenção e a curiosidade lhe incitava a querer segui-lo. 
Levantou-se, recolheu sua flor e procurou a fonte daquele odor que se manifestava agora sobre toda a percepção do menino, que saiu a caminhar por entre as árvores, ansioso por sua descoberta.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O Menino e o Vagalume - Parte 3



Chegou um tempo em que o menino detestava ser criança. Lhe disseram que ser criança é apenas viver num mundo de fantasias, irreal. Era ser um idealizador, ou um romântico desprezado. Ele queria crescer, ser adulto. 
Um dia, cansado de se conformar, o Menino se recusou a continuar vivendo somente com as esperanças que tinha, e resolver seguir um caminho. Não sabia para onde ir, mas deixaria que o seu coração o guiasse. 
O Menino, da janela de seu quarto, voltou os olhos para o céu, olhando as estrelas que há muito não olhava, tentando encontrar nelas o guia que o conduziria em sua jornada, mas elas se dissiparam todas pelo ar... Ele já não era mais criança para que as estrelas lhe falassem. 
Logo pela manhã, ao despertar da aurora, o menino despediu-se então de seus pais, dando um beijo terno neles, mas antes de partir, sua querida mãe lhe deu um presente e recomendações. 
O presente consistia em uma flor, única no mundo, que lhe fora dado quando concebido, e que somente a ele poderia pertencer. Nesta rara flor, estava toda a sua força vital, e o menino deveria protegê-la, e não entrega-la a qualquer pessoa, pois se mãos erradas a possuíssem, poderia significar a morte para o menino. 
Ele aceitou cuidar agora de sua flor, levando-a consigo para onde quer que fosse, pois não poderia mais se separar dela, uma vez que se tornaria seu responsável. 
Saiu de sua casa e começou a seguir o seu próprio caminho. 
O menino desejava encontrar aquele lugar distante, para onde as estrelas e a felicidade haviam fugido. Queria construir o seu próprio reino, e ainda acreditava que isso seria possível. Ele queria voltar a ser principezinho, porém tinha a consciência de que isso era apenas uma ilusão. 
Não sabia o que encontraria em sua jornada, e nem estava tão preocupado com isso. Neste instante, desejava a liberdade e despreza o medo em seu interior. 
Não chorou ao se despedir de sua família, mas depois de alguns passos, quando já estava sozinho, invisível a quaisquer olhos, o menino deixou que algumas poucas e amargas lágrimas escorressem por seu rosto até se perderem no pó da estrada. Olhou para trás, para tudo o que conhecia até então, e se despediu sustentando um sorriso de vitória, mais sincero que muitos outros sorrisos, e continuou a caminhar.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O Menino e o Vagalume - Parte 2

Levantou-se e voltou para casa, deixando as estrelas para trás. 
Não encontrou um castelo, nem reis e rainhas, nem mesmo uma enorme escadaria para a porta de entrada, mas entrou em uma pequena casinha, onde o esperavam seu pais e seus irmãos. 
O jantar estava servido à mesa, mas o menino não sentia fome. Perdera qualquer desejo naquela noite, e comia empurrando o alimento goela abaixo, quase literalmente. Seus pais estavam cansados, pois trabalharam o dia todo, e nem perceberam o olhar triste e sem brilho do menino. Ele soube disfarçar bem sob a noite que chegara. 
Conversaram então sobre os estudos e quão importante era que ele estudasse, para conseguir se tornar alguém importante. Falaram também das contas a pagar, das dificuldades e de tudo o que aqueles pais tão bondosos queriam dar de presente ao principezinho deles, mas que ele precisaria esperar um pouco de tempo até que as coisas melhorassem. Os pais não disseram, mas o menino sabia que eles não tinham dinheiro suficiente para lhe dar tudo o que queria, e se fez feliz e valorizado com o pouco que recebia, reconhecendo o esforço de seus pais. 
Naquela noite, o menino também aprendeu a renunciar seus desejos e vontades, afinal, ele tinha tudo o que precisava, inclusive o amor de sua família, e isso era o maior bem que alguém poderia ter.
Foram todos dormir, e as luzes se apagaram, mas o menino não conseguia e, deitado em sua cama, se lembrou das estrelas. Ali, escondido no escuro que até então era insignificante e despercebido, mas que agora o menino temia, ele enfim chorou. Silenciosamente chorou. 
Dias se passaram, e o menino estava muito ocupado tentando ser alguém importante, mas ele não sabia o que era ser isso. As pessoas o diziam o que ele deveria fazer e o que não poderia. Diziam ao menino sobre o que ele deveria gostar e odiar. Ele teve amigos, ou pensava que tinha, mas vivia superficialmente, pois assim achava que deveria ser, seguindo às pessoas com quem se socializava. Deveria ser simpático, sorrir para todos, não chorar na frente de alguém e não expor seus pensamentos e sentimentos se estes contradissessem o que se esperava dele. 
Entre todos que conhecia, haviam algumas pessoas mais especiais, com quem mais gostava de estar, pois o menino sentia que realmente gostavam dele, e por mais que tentassem uma aproximação mais profunda e íntima, o menino não permitia, pois não sabia ser sincero e tinha medo de tentar. 
Aos poucos, as pessoas se afastavam e outras apareciam... e aquelas especiais um dia partiram. Novas pessoas especiais o menino encontrava, mas ele sabia que elas partiriam algum dia, e o pobre menino se sentia sozinho, mas era assim que deveria ser, conforme ele pensava, e nada poderia preencher aquele vazio que sentia. Mas o menino ainda tinha esperanças. Talvez as estrelas, algum dia, voltassem a lhe pertencer...

domingo, 17 de julho de 2011

O Menino e o Vagalume - Parte 1



Era uma vez um principezinho.
Ele não era rico e nem era um príncipe de verdade, mas se considerava um. Possuía todas as estrelas do céu, e sua alegria era sem fim.
Ainda quando era bem pequenino, saía a caminhar por seu reino, contemplando as flores, as árvores, os pequenos animais e, claro, as estrelas do céu, que a noite revelava. Todas as estrelas o serviam, e nada lhe faltava.
As estrelas brilhavam sobre ele e, à noite, não existia o escuro.
Um dia, o principezinho sentou em uma grande pedra para ver o sol poente, e ficou ali, melancolicamente, esperando a noite, para o momento que mais ansiava, quando veria as suas estrelas novamente e assim pudesse se alegrar.
O Sol que o aquecia então se pôs, e desapareceu atrás das montanhas, dando lugar ao frio que chegava em sua ausência. O principezinho sentiu o frio chegar, mas pensou consigo que a Lua não tardaria, e logo as estrelas estariam todas ali, e quem sabe não veria belíssimas estrelas cadentes, que cruzariam o céu.
Mas aquela noite não teve luar e, pela primeira vez, o principezinho sentiu medo do escuro.
As estrelas chegaram e brilhavam no céu, mas não mais respondiam ao chamado do menino. Elas estavam mudas, calaram-se. Então o menino, meditando em tudo isso, reconheceu que não era um príncipe, e que seu reino não existia, mas era apenas uma fantasia de criança. Ele não era mais criança. O pequeno cresceu, e se viu como um menino comum.
Tentou até esticar os braços para alcançar as estrelas, mas descobriu que elas estavam longe demais. Elas não pertenciam mais a ele, e ele, não podia mais alcançá-las.
O menino, com frio e medo, deixou cair uma lágrima de seus olhos, mas logo se conteve e nenhuma mais derramou ali, afinal, chorar é coisa de criança, e isso ele já não era mais.