Vagando por entre as sombras das árvores de um aberto e pequeno bosque e deixando para trás o riacho gelado, tudo o que gostaria de descobrir era a fonte do doce odor que lhe excitava. Passou pelas árvores e nem notou os esquilos que corriam pela trilha, nem percebeu o barulho que faziam ao pular e se esconder nos montes de folhas secas que o vento de outros outono trouxera. Apenas sentia e seguia o cheiro.
Depois que as árvores terminaram, o menino encontrou uma ampla campina florida de variadas cores. O brilho do sol fazia com que tudo se tornasse mais bonito, e a brisa que vinha dos vales distantes espalhava o doce perfume pelos ares, que entrava pelas narinas do menino e lhe causava uma estranha sensação extasiante.
De um jeito tímido, aproximou-se das primeiras flores, que lhe sorriam e abanavam, auxiliadas pelo vento. O olhavam de modo convidativo, sorrindo com uma simpatia que lhe parecia confiável, e o menino se aproximou mais e, inclinando-se, atreveu a cheirar de perto, quase encostando o nariz nas pétalas das flores, e estas ainda mais lhe pareciam sorrir. A brisa que ali corria curvou-se e, como um modesto e suave redemoinho, empurrava levemente o menino contra o jardim, estimulando-o a adentrar em meio às flores.
O ingênuo menino esqueceu sua timidez e seus receios e caminhou entre as flores, que o acariciavam conforme passava. Todas as flores se viravam para ele, como um girassol que se volta para o sol, e balançavam em uma sincronia hipnotizante, e não deixavam de sorrir e olhar. Lhe pareciam confiáveis e amigáveis, como as companhias que o menino gostaria de ter para si. Caminhando e perdendo a noção do tempo que já gastara ali, como uma mágica o perfume das flores despertava emoções no menino, que se entregava aos prazeres que sentia. Saltava de flor em flor, cheirando, sendo acariciado e se deleitando de paixões. O menino sorria, como as flores lhe sorriam, e seu corpo se anestesiava e, de tantos prazeres, se sentia relaxado e até sonolento. Continuou dessa forma até que sem perceber, estava entregue ao sono, deitado entre as flores, com um sorriso abobado na face.
Uma dor repentina fez o menino despertar. Não conseguia levantar, pois estava preso, como que enraizado ao chão. Os ramos das flores se entrelaçaram sobre seu corpo e membros, aprisionando-o. Os agudos espinhos lhe perfuravam a roupa e a pele, arranhando-o. O prazer transformou-se em dor, e a aparente liberdade tornou-se prisão.
Por sorte, aquele menino, mesmo com toda a sua ingenuidade, era repleto de uma bênção especial, como uma dádiva que lhe fora dada gratuitamente. Lutou contra as amarras, e o veneno que os espinhos injetaram em seu sangue não foi o suficiente para fazer efeito, mas com certeza faria se continuassem ali por mais tempo.
Aquelas flores, na verdade, não eram simples flores bonitas e perfumas, de uma rara beleza. Eram criaturas enfeitiçadas por uma antiga magia maligna. Não cometiam o mal por que queriam, pois sua essência é e continuará sendo boa, mas são impelidas à maldade devido ao estado em que se encontram, e por terem perdido a consciência do certo e do errado. Eram também pessoas antes de se transformarem e, como o menino, também se entregaram àquele prazer parecido com liberdade, mas que era um engano, uma mentira escondida na aparência formosa, na simpatia, nos sorrisos e nos olhares. O pequeno menino também se transformaria em um deles se não lutasse, levantasse e fugisse daquela situação de risco, e a graça que o acompanhava lhe fazia ser forte, mesmo que ainda continuasse a ser tentado pelo perfume que exalava, ainda mais forte pelo fato da vontade do menino de se livrar daquilo, e mesmo que se sentisse fraco diante daquela situação, ele poderia vencer se fosse determinado a não mais se entregar.
O menino olhou para o Céu e, juntando suas forças em um único suspiro, retorceu-se e levantou, rompendo o que lhe prendia ao chão. Olhou para o Céu pois sonhava em voar, e o tinha como o seu lugar. Não nasceu para se arrastar ao chão.
Depois de ter se levantado, pela sua própria vontade e esforço, a luta se tornou mais fácil, pois continuando a sentir o doce perfume, conseguia manter-se concentrado e decidido. Percebeu que estava sem a sua flor, que tanto amava, e se lembrou que não poderia prosseguir sem ela, e nem ao menos viver. Correu então, por entre as flores, que continuavam a sorrir e olhar, mas já não lhes dava atenção. Encontrou sua flor, que se destacava entre as demais, e a resgatou toda machucada e ferida pelos espinhos, e a sentia doer em sua alma. Abandonou aquele lugar e fugiu.
A dor que sentia latejava e o menino, depois de ter corrido rumo à direção que sentia dentro de si, deixou o campo aberto e entrou novamente em um bosque, o mais escuro que já viu e, aprofundando-se na escuridão do bosque, encostou-se em uma árvore, um pinheiro alto e sombrio, e escorregando vagarosamente pelo tronco do pinheiro, sentou-se no chão, abraçando-se a si mesmo e protegendo a flor com o seu corpo. A noite caiu, mas já quase não fazia diferença dentro do bosque, e o pobre menino, desta vez verdadeiramente adormeceu. Adormeceu de tanto chorar.

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