Conforme caminhava, o menino notava paisagens lindas e diferentes, encantando-se com a sua beleza e infinidade, assim como procedia quando ainda era criança. Não havia ninguém para questionar sua inocência e seu comportamento. Ele se deixava admirar pela beleza que o cercava, mas não sabia encontrar o equilíbrio interior que o permitiria ser verdadeiramente livre. Estava preso entre a realidade e a fantasia de seus sonhos. E a solidão, que ele buscava para viver consigo mesmo, tornou-se entediante.
O menino se sentou então a beira de um riacho, para descansar de sua árdua caminhada. Repousou os pés na água corrente e fria e ali permaneceu, silenciosamente, com a única companhia que tinha, sua flor tão estimada.
Aos poucos, o menino foi se entregando aos sentidos. Sentiu como a água do riacho era mesmo fria, ao ponto de adormecer as pontas dos dedos de seus pés. Sentia a velocidade da correnteza que massageava sua pele, acelerando sua corrente sanguínea, que passou a ter a mesma velocidade do riacho. Sentia seu coração bater no ritmo do ambiente, e era quase capaz de ouvi-lo. Sentia seu sangue correr por suas veias, dos pés frios às maçãs de seu rosto, aquecendo-se novamente com o calor do sol que brilhava. Aquele brilho do sol refletia das águas, e tudo se tornava mais claro e luminoso, num convite para fechar os olhos e viver aquele momento.
Junto com o pulsar do coração, o menino ouvia a brisa suave ao longe, o murmúrio da água que corria veloz, o canto dos pássaros pulando nos galhos das árvores. Sentia a aspereza da grama nos dedos de suas mãos apoiadas no solo. O menino neste instante, fazia parte do ambiente. Eles eram um só naquele momento.
Com os olhos ainda fechados, o menino se entregava mais aos sentidos, e até mesmo seus pensamentos voavam junto com a brisa suave e corriam junto com o riacho gelado. Sentia o cheiro inodoro da água, úmido e frio, e o cheiro trazido pelo ar, sentindo o seu sabor. Seus sentidos se misturavam assim como ele se misturava àquele lugar.
Com a percepção sagaz de seus sentidos, o menino sentiu um odor que até então não havia percebido. O vento lhe trouxe um cheiro doce, que lhe causava prazer e curiosidade.
No instante em que percebeu esse novo cheiro, o menino abriu os olhos e despertou. Deixou de ser único com o ambiente e retornou a ser ele mesmo. O cheiro lhe chamava a atenção e a curiosidade lhe incitava a querer segui-lo.
Levantou-se, recolheu sua flor e procurou a fonte daquele odor que se manifestava agora sobre toda a percepção do menino, que saiu a caminhar por entre as árvores, ansioso por sua descoberta.

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